"Há políticos portugueses que já não vivem em Portugal”

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Há políticos que são de cá, que são portugueses, mas não vivem cá. Não sei onde é que vivem. Não vivem cá. Eles não sabem quanto é que custa um pão de leite ou uma carcaça. Eles sabem lá, eles fazem contas. Para já, a minha ideia é que eles na política vivem para os partidos. O importante deles é: "O meu partido é melhor que o teu. Não venham cá com coisas". O povo: "Ah, é o povo. Está bem, o povo também, um bocadinho". Eles vivem para o seu partido, fazem política para o partido. Eu ouvi há pouco tempo uma intervenção de um ministro que me fez muita confusão. Mas o que é que ele me está a querer dizer a mim? Sobre uma greve. Uma greve que houve agora.
Sim, há pouco tempo.
E disse uma coisa espantosa. Eu acho que isto devia estar escrito, pelo menos. Que é: uns têm direito a trabalhar e os outros têm direito a fazer greve. Que coisa! O que ele descobriu, que eu nunca tinha percebido isso. Agora, ele põe aquilo de uma maneira que barralha as pessoas. Deixem trabalhar quem quer trabalhar, ok. E deixem fazer greve quem pode e quer. Mas o que ele queria dizer com aquilo? Não percebi nada. Às vezes mais vale estar calado, não é?
Começou por ser um menino curioso, num bairro simples e com muitos sonhos. Ele que conhece a dureza de esperar por um papel e o privilégio de dar vida a tantos, entra há décadas nas nossas casas, em novelas, séries, filmes, faz parte da história da ficção portuguesa. Viveu altos e baixos, venceu o preconceito pelo direito a amar em liberdade, fintou as rasteiras do próprio corpo e continua a olhar para o mundo com a generosidade de quem sabe que a arte é o único espelho capaz de salvar um país indiferente. Hoje, aos 82 anos, queremos conhecer o homem por trás do ator, o artista que nunca deixou de acreditar que o riso é também uma forma de resistência e que acredita que há vida, muita vida e muitas histórias ainda para contar. Carlos Areia, em "40 Minutos", seja muito bem-vindo aqui à Rádio Observador.
Eu é que agradeço o convite.
Com 81 anos, mais um. Gostas desta forma de se apresentar?
Então adoro. Se fosse 80 menos um é que era ótimo.
Tu ligas muito à questão da idade. Nós vemos-te há tantos anos no ecrã, nas peças de teatro, e vamos falar de uma já daqui a pouco. Parece que a idade não passou por ti. A forma como tu te dedicas a tudo é bastante...
Se tu me vires levantar de manhã da cama, é uma dor aqui, é uma dor ali. Todos os dias aparece uma dor. Eu costumo dizer que realmente chegar a esta idade é um privilégio, mas é outra coisa que eu não vou dizer que é uma asneira, mas é um privilégio. De resto, quando há colegas meus que com a minha idade dizem: "Estou melhor do que quando tinha 20 anos". Já estão com Alzheimer ou coisa parecida. Porque eu quando tinha 20 anos, vai lá vai.
O que era diferente nessa altura?
Fisicamente era tudo, a maneira de pensar, um bocado parva, que temos a mania que sabemos tudo e que o mundo é nosso, mas isso é que nos dá lastro para continuar a vida. Mas é giro. Então não é giro ter 20 anos? Tão bom.
Do que é que tens saudades? Nós já vamos mais profundo também à tua infância.
Não, não tenho grandes saudades.
Não tens saudades de ter 20 anos?
Não.
Estás na tua melhor fase agora?
Sim, a partir dos 50 anos, talvez. Eu comecei a viver muito tarde. Eu comecei a fazer os disparates que deveria ter feito aos 18 anos, comecei a fazer com 50, porque não vivi os 18 anos. Foi um bocado violento. E então aos 50, comecei a perder a loiça toda, disparate. Claro, só fiz porcaria.
Que disparates são esses?
São os disparates de uma juventude que quando os faz, não é disparate, é tudo bom. Mas visto aos olhos dos outros, fazemos coisas que os outros dizem: "É uma criança, não sei o quê". Mas faz parte dos 18 anos. Só fazer isso aos 50, então é duplamente.
Há uma idade em que deixa de haver desculpas para certos comportamentos, certas experiências?
Ganhamos mais conhecimento, temos mais responsabilidade, assusta-nos mais, temos mais medos. Antes de darmos um passo para frente, damos se calhar dois para trás. E quando somos novos, é tudo para a frente, é sempre a rasgar pano.
Quando pensas naquele menino curioso, que cresceu num bairro simples, que sonhos é que ele tinha e que achas que ele já concretizou? Ou se te levavam até para este plano que estás agora.
Não, eu não era muito sonhador. Eu tive uma infância muito complicada, muito difícil. Lembro de morar numa cave escura e uma das coisas que eu mais gostava era subir aqueles dois lances de escada e olhar o céu azul, ter luz. É um sonho de menino. É mesmo um bocadinho à pobre, morar numa cave e ter o sonho de subir os dois lances, abrir a porta e olhar para o céu azul. Em 43, eu comecei a ter conhecimento, sei lá, aos cinco anos, seis anos. 1949, 50, uma época escura, cinzenta, daí eu gostar muito do céu azul. Era tudo muito cinzento. E viver no alto de Santo Amaro, viver num bairro onde as fronteiras delimitam um bocado o pensamento. É a minha rua. O meu mundo era a minha rua, tudo o que fosse para além da minha rua era outra coisa. Eu moro na margem de cá, no bairro de Alcântara, ao alto de Santo Amaro, e olhava para Cacilhas e era uma coisa que nós chamávamos "a outra banda". Nem era Cacilhas, era uma coisa estranha, era a outra banda. E a vida dá tanta volta que eu moro na outra banda há 50 anos.
Exato.
E não quero outra coisa.
Tu, Carlos, viveste numa altura em que não se podia dizer o que se pensava. O 25 de Abril aconteceu em 1974.
Até nos cortavam o pensamento, de alguma forma.
Para uma criança viver nessa altura, como é que era? Tu tinhas noção daquilo que estava a acontecer ou era uma realidade muito pintada de outra forma?
Não, não passava da minha rua. Não saía nada, nem entrava da minha rua. Isto para uma criança. Só me apercebi disso anos mais tarde. Também sempre fui muito desligado, sempre vivi a vida, até hoje, e vou continuar assim, despreocupado. A vida nunca me preocupou, levo a vida a brincar. Já fiz esse balanço e hoje aos 82 continuo a levar a vida a brincar. É bom ou é mau? Não sei, é a minha maneira de estar e é a maneira com que eu cheguei a esta idade e estou onde estou. Se estou bem, se estou mal, fui eu que quis assim. Portanto, não me apercebi disso. Comecei depois, quando comecei a crescer, a fumar como os homens, a querer embebedar-me à pressa, porque é giro ser bêbado. Era giro esse tipo de coisas. Fuma que é para pareceres um homem, que era giro. Antigamente diziam para eu fumar, agora que sou homem, dizem: "Não, não fumes, isso é mau". Portanto, tive que viver toda esta realidade. Eu e não só, a minha geração. Foi muito estranho. Hoje sofro muito mais ao pensar nisso, olhar para mim: "Viva, viveste aqueles tempos assim daquela maneira". Apercebo-me muito mais hoje do que na realidade, na altura.
Muito bem. E o que te dava curiosidade de saber, falavas aí dessa margem, de saber o que está para lá disso?
Olha, eu sonhava, agora não sei como é que está o movimento fluvial. Um dos meus sonhos era ir para o pé da Capela de Santo Amaro, olhar a doca, a chamada Doca de Alcântara, onde atracavam muitos barcos e então levavam os meus sonhos para os Estados Unidos, para o Brasil. E aí eu sonhava um bocado com isso. Sonhava muito ao ver os barcos zarpar ali no rio Tejo, olhar para os barcos. Sonhava o que estaria para além daquela linha do horizonte que acaba ali para os lados do Vigio, que eu olhava, o que estava para lá disso. E os meus sonhos passavam por aí.
Qual é a memória mais nítida, a fotografia mais nítida que tens da tua infância?
A minha rua era realmente o meu mundo. E os meninos da rua.
Essa rua está muito diferente aos dias de hoje daquilo que tu viveste.
A minha rua é muito comprida. Vai da Capela de Santo Amaro até cá acima à linha do elétrico, um elétrico que vai para a Boa Hora. E havia um automóvel. Portanto, aquilo são um, dois, três, quatro quarteirões, que chamamos, a rua. E havia um carro que era do senhor Mac Picoco. O Mac Picoco era o enfermeiro que dava injeções. Era o único que tinha carro. Um carro. Hoje não tens um sítio onde pôr um carro.
É verdade.
Aquele bairro de Santo Amaro está uma coisa...
Ainda tem o encanto ou perdeu um bocadinho dessa luz que falavas?
Perdeu, e não foi só o bairro de Santo Amaro. A nossa Lisboa, a minha Lisboa. Está descaracterizado. A malta de Lisboa saiu, foi não sei para onde, e os de não sei para onde vieram para Lisboa. Portanto, é um processo natural.
Falta identidade. A identidade, por exemplo, bairrista.
O bairrismo, aquele bairrismo, que se calhar também teve o seu tempo, também já não terá razão de ser. Não faço ideia, mas é sempre bom haver um bocadinho de bairrismo, nós agarrados às nossas coisas, pensarmos nas nossas coisas é bom. Às vezes, há um bairrismo exacerbado.
Nesta altura dos centros populares, conseguimos ver um bocadinho disso, não é?
Até as pessoas que não são do bairro, aliás, a maior parte das pessoas que não são propriamente dos bairros, vão aos bairros viver esse falado e vivido bairrismo. E sentem isso, é engraçado.
Muito bom. Olha, eu li estas declarações que tu fizeste, vou passar a citar: "Se voltasse à minha infância, nunca mais deixaria que fizessem de mim uma bola de basquetebol que se atira de mão em mão". Houve coisas que aconteceram na tua vida que tu na altura não conseguiste processar?
Não conseguia.
E que ainda hoje em dia fazem mossa e refletem no homem que és.
Por exemplo, eu acho giro isso escrito, é bonito de se ler, e se calhar fui eu que disse, mas eu não tinha como fugir naquela idade. Porque a avó em mim: "Não, agora vais para a tua tia. Não, agora vais para o teu pai. Agora voltas para a tua avó. Agora vais outra vez para a tia". Como é que uma criança daquela idade tomava uma posição? E quando tomei posição só fiz porcaria, passe o termo. Apetecia-me dizer outra coisa, mas só fiz porcaria ao ponto até de fugir de casa. Andei fugido por aí uma semana ou coisa, porque a minha infância ninguém teve a culpa, foi muito maltratada.
Tu cresceste sem figura materna e isso possivelmente também influenciou muito.
Materna e paterna.
Exato, mas influenciou muito o teu crescimento, a tua forma de ver o mundo, possivelmente até com outras crianças que tinham essas figuras.
Não há muito tempo dizia alguém: "Isto podia ter corrido muito mal". Sim, podia. A vida condiciona-nos, a vida traça-nos, dá-nos linhas, ou agarramos ou não agarramos. Enfim, mas não correu mal. Podia ter corrido melhor.
Quando é que te encontraste?
Ainda anda a mulher à procura. Eu acho que encontro-me todos os dias, mas aos bocadinhos. Não é: "Já está tudo. Já sou um homem feito, já sei tudo". Não sei nada e tenho a consciência que estou cá, passo por aqui, vou-me embora e nada sei.
Isso mantém-se assim também porque queres manter os pés bem assentes no chão? É uma filosofia de vida?
A minha filosofia de vida é não dar muita importância à vida, se bem que há momentos-
Que é preciso, não é?
Que é preciso.
Tiveste aí um acidente ainda há pouco tempo. Aliás, esta entrevista era suposto ter acontecido em novembro.
Exatamente.
E depois aconteceu esse pequeno acidente com o teu tornozelo.
Isto era uma entrevista para ser feita com os pés no chão e eu só tinha um pé.
Exato.
Foi difícil, foi muito difícil. Mas mesmo assim ainda consegui ver o lado engraçado da coisa, se é que alguma graça tinha um gajo estar ali com o pé todo feito, cortado e sei lá o quê, cheio de dores. Mas estou eternamente agradecido, correu tudo bem, fui muito bem tratado.
Muita fisioterapia?
Muita fisioterapia, um grande operador.
Foi um simples acidente em casa?
Não, na rua. Ia chegar a um pátio, que eu vivo num pátio enorme e tenho os degraus de acesso ao pátio, tenho uns seis ou sete degraus, e eu vou no passeio e tenho do meu lado esquerdo os degraus para entrar para o pátio, e quando vou a torcer o tronco, escorrega-me o pezinho e pronto, ficou ali tudo, ficou ali um ano de trabalho, que eu tinha estreado há pouco tempo.
Sim.
E ficou um ano de trabalho: "E agora como é que é o coiso? Acabou a peça". Foi dramático.
Mas já estás de volta e com novidades para contar.
Já estreei no Algarve, já estreei o "Quinteto de Morte", já voltei e diverti-me muito e fui muito bem recebido, como já sabia. Foi muito bom.
Vamos falar sobre isso, Carlos, na segunda parte. Carlos Areia é o convidado do "Em 40 Minutos". Vamos só fazer aqui uma curta pausa e já regressamos para a segunda parte.
Até já.
Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Carlos Areia, que estávamos aqui a falar no final da primeira parte, está de regresso ao trabalho depois daquele pequeno acidente com o tornozelo. Está com os dois pés no chão, penso eu. Não consigo ver agora.
Não, já estou.
Já está. Já está bom.
Está ótimo.
Falamos desta peça, "Quinteto de Morte", que agora vai andar pela Figueira da Foz e ainda pelo Porto estes dias, não é?
Sim, Figueira da Foz no próximo fim de semana, sexta e sábado. Depois no Porto, 18 de junho a 12 de julho, no Sá da Bandeira.
E vai estar ainda lá quase um mês.
Quase um mês. Sá da Bandeira, sim.
Portanto, é comprar os bilhetes. Tu nesta peça, como é que te preparaste para ela? Porque tu entraste aqui, tiveste este pequeno acidente, portanto, foi uma situação de voltares. Como é que está a ser?
Foi bom, porque eu já tinha estreado este Major. Tive tempo, mais ou menos, para encontrar este Major e peguei nele outra vez. Quer dizer, não foi muito difícil. Tive que o relembrar novamente, até o próprio texto que eu não tinha pegado, mas tinha uma vaga ideia, muito vaga. E foi muito bom. Voltei a divertir-me muito com os meus colegas, com todo o elenco. Foi muito bom.
E estás com colegas que gostas imenso de trabalhar também.
Todos eles. Há sempre uma ligação maior com um ou com outro, mas isso tem a ver com as histórias de vida. O caso do José Raposo, com quem eu já vivo há muito tempo. E depois outros, tive o Heitor, tive agora o Carlos Sebastião, o António Machado Tenho a senhora dona Florbela Queiroz, tenho a Fatinha. Sei lá, eu corro o risco de-
São muitos. É melhor ficarmos por aqui, senão depois vais te esquecer de alguém.
É verdade. Tenho os filhos do Raposo, que isso é uma marca indelével. O Ricardo e o Miguel. Se calhar ao longo destes minutos ainda me vou lembrar do resto do elenco.
Uns quantos, não é?
Uns quantos.
Eu não sei se te sentes nervoso assim que sobes à palco, mas o friozinho que sentes é o mesmo quando subiste pela primeira vez?
Não. A primeira vez que eu me lembro, tremiam-me as pernas, a voz, tremia-me tudo. É verdade que com a idade me assusta mais. Devia ter mais, acho que tenho mais consciência do que é que vou fazer. Quando somos novos atiramo-nos de cabeça e às vezes resulta, outras vezes nem tanto. Agora com a idade. Há uma coisa que eu tenho, é que eu não me enervo muito, como dizia o Otávio de Matos: "Epá, mas tu na estreia não te enervas?" Como o Otávio era uma pilha de nervos. Não, fico ansioso para saber do resultado do meu trabalho. Isso fico ansioso. Agora ao enervar-me, não me enervo muito, é mais ansiedade, querer saber a resposta de um ou dois meses, ou três meses de ensaios. Isso sim. Nervoso, não. Quando me estreei, lembro-me que tremia, tremeu-me a voz, tremia-me tudo. Tudo tremia quando me estreei em "O Equilíbrio".
Foi muito interessante fazer a pesquisa para conversar contigo, Carlos Areia, porque a lista de projetos que tu já fizeste é bastante grande e eu coloquei isto num documento e ocupava imenso espaço.
Não faço ideia.
Depois posso te mostrar. Mas acima de tudo, ao fim de tantos anos, fazer coisas tão diferentes, porque tanto fazes, aliás, fizeste cinema também há bem pouco tempo com "O Lugar dos Sonhos".
Um drama. Não era drama. Como eu costumo dizer, não era drama nem era comédia, era uma história de vida e a vida tem drama, tem comédia, tem absurdo, tem tudo.
Tem tudo. É isso que é vida.
Aquele filme tinha um bocadinho disso tudo.
Esse filme, e se calhar isto pode ser ingrato, mas é o papel da tua vida, ou seja, vimos muitos comentários, muito feedback positivo nesse sentido. Eu retirei também aqui alguns de elogios que te foram fazendo, elogios públicos até, porque vimos o Carlos Areia-
Noutro registo.
Noutro registo, sim. E associamos-te muito, por exemplo, ao humor.
Não foi o papel da minha vida. No cinema, foi realmente o papel da minha vida. Carreguei a história às costas, eu e o resto. E vivi com muita verdade aquilo. Talvez dos trabalhos que eu vivi com mais verdade, se bem que o representar é um acto de mentira, mas vivi aquilo com muita verdade e resultou isso no cinema. Mas depois tenho várias coisas que fiz ao longo da vida, são tantas que eu não destaco nenhuma, são todas. Para mim é tudo.
E todos os papéis fazem parte também do teu palmarés, vamos dizer assim.
Sempre, tanto faz ser terceira figura, como quarta, como quinta figura, agarro sempre o trabalho de uma maneira como se fosse o melhor ator do mundo e a primeira figura do universo. Fica ali, isso é verdade.
Olha, nós ainda há duas semanas tivemos aqui no "Em 40 Minutos" a Marina Mota, falámos do teatro de revista e da comédia. Ela que agora tem uma peça que está também em cena, o Radoshka. São géneros que serviram sempre para criticar o poder e os costumes deste nosso país. Hoje, com as redes sociais, temos aqui um novo normal, que até nos estamos todos ainda a adaptar, com muito policiamento também da linguagem. Os atores hoje têm mais medo de arriscar e é mais difícil fazer rir hoje do que nos anos 80 ou 90, por exemplo?
É, porque anda toda a gente a fazer rir. Aparece aí tanta gente a fazer rir, a chamar, como é que se chama aquilo? Stand up.
Stand up comedy.
Ai, que bom. Stand up comedy. E realmente tanta gente a fazer rir que deve ser muito fácil fazer rir.
E é?
Ao contrário do que eles pensam, é muito difícil fazer rir. Muito difícil. São tempos completamente diferentes. O que hoje tem muita graça, antigamente não tinha graça nenhuma, o que antigamente tinha muita graça, hoje não tem graça nenhuma. Agora que hoje há comediantes, vou tentar fazer uma graça: eu deixei de comer sopa às refeições, tenho medo que me apareça um comediante, então não como a sopa. É porque eles são tantos, não me vá aparecer um na sopa. Isto não tem nada a ver com qualidade, porque ainda há aí muita gente com muita qualidade. E depois outros, epá, escusa. Não quero dizer mal de ninguém, mas que é um disparate, é um disparate. E eu conheço um dos stand-uppers, stand-uppers?
Um dos comediantes, sim, humoristas.
Um comediante mais antigos, talvez, a fazer esse trabalho. O primeiro, as pessoas esquecem-se, chamava-se Raul Soldado. Já fez isso que a malta agora anda a fazer. E depois o que impulsionou, desculpa lá, estou a dar no microfone. O que impulsionou isso foi um puto de Rio Tinto chamado Fernando Rocha. Mesmo com as asneirolas e todos, e lançou muita gente e deu a mão a muita gente e isso foi um boom. Pronto, agora olha, atura-os. Agora atura-os.
Mas, Carlos Areia, como é que um ator se adapta a esta nova forma? Porque acima de tudo é também de comunicar e de representar, quer seja em televisão, quer seja no teatro.
Sim, sem dúvida.
Te adaptas a esta nova realidade, até mesmo pela questão das redes sociais, que tu também usas hoje em dia?
Sim, tenho que me adaptar. Aliás, eu aprendi a viver com a realidade. Há muita coisa que eu não concordo, mas tive que me adaptar a ela. Não sou crítico ao ponto de dizer: "Não faça isso, não diga isso". Não. Pronto, OK, deixe-me ir um bocado. Lá está, a maneira de estar na vida, levar a vida o mais leve possível, adaptar-me às circunstâncias, embora não concorde com muita coisa que se passa à minha volta e não concordo com muita coisa, mas já não tenho idade pra andar em combates. Portanto, deixe-me estar no meu cantinho, digo que sim, gosto, talvez, ok, tudo bem. Será essa a minha posição. É boa ou má, é a minha. Já não estou pra lutas, não tenho paciência. A minha idade deu-me muita coisa e tirou-me muita coisa. E uma delas tirou-me a paciência. A paciência pra aturar pessoas estúpidas, a estupidez, a maldade. Não tenho.
Tu tens lamentado algumas vezes que as pessoas hoje estão mais frias e que se perdeu também muito o valor da amizade genuína e da família.
Completamente.
O que nos aconteceu?
Eu costumava dizer assim: nós vivemos geograficamente até num país que não é muito grande e é um quintal. E vivemos todos, quase todos, alguns, a maioria, de costas uns para os outros. Vivemos de costas. E de repente, há um dia que nós nos voltamos e diz: "Olha, tu não és primo da irmã do coisa que casou, que era meu cunhado? É, dá cá um abraço, somos amigos". Quer dizer, porque andamos distraídos na vida hoje em dia. E de vez em quando, lá nos encontramos assim. Isso teve uma evolução muito grande. Isto deu uma volta muito grande. Tem que dar mais, claro, nós merecemos muito mais, mas as pessoas não fazem e nem têm que fazer. Por acaso deveriam fazer.
Enquanto português, estás desiludido com o teu país?
Boa pergunta. Uma pergunta inteligente. Eu vou dar uma resposta estúpida, mas eu ia por aí. É assim, houve grandes conquistas, e quem disser o contrário, vá andar dormir. Houve uma mudança muito grande. Desiludido, estou com algumas coisas que se passam. Estou. Desilude-me. E aqueles que nos orientam, que nos dão linhas, que nos dão e que nos tiram também, que eu penso que têm uma capacidade de raciocínio melhor do que a minha, são mais inteligentes, tiveram essa hipótese. E eu tenho que levar com eles a dizer coisas, esses disparates nas televisões e nas rádios. Estão a fazer o povo parvo, estúpido, isso chateia-me.
Estás a falar da questão da política?
Sim, eu sei que não é fácil, não deve ser fácil dirigir um país, mas depois há pessoas que são de cá. Há políticos que são de cá, que são portugueses, mas não vivem cá. Não sei onde é que vivem. Não vivem cá, eles não sabem quanto é que custa um pão com manteiga ou uma carcaça, eles lá fazem contas. Não sei. Para já a minha ideia é que eles na política vivem para os partidos. O importante deles é: "O meu partido é melhor que o teu. Não venham cá com coisas". O povo: "Ah, é o povo? Está bem, o povo também um bocadinho". Eles vivem pro seu partido. Fazem política pro partido. Eu ouvi há pouco tempo uma intervenção do ministro que me fez muita confusão. Mas o que é que ele está a querer dizer a mim? Sobre uma greve. Uma greve que houve agora.
Sim, há pouco tempo.
E disse uma coisa espantosa. Eu acho que isto devia estar escrito, pelo menos. Que é: uns têm direito a trabalhar e os outros têm direito a fazer greve. Que coisa. O que ele descobriu, que eu nunca tinha percebido isso. Agora, ele põe aquilo de uma maneira que barralha as pessoas. Deixem trabalhar quem quer trabalhar, ok. E deixem fazer greve quem pode e quer. Mas o que ele queria dizer com aquilo? Não percebi nada. Às vezes mais vale estar calado, não é? Pois, se calhar era o que eu devia fazer.
Sobre aquela volta que falamos há pouco, ainda tens esperança que isto dê uma volta? Há bocadinho falamos dessa questão. Por exemplo, Lisboa já não é a mesma.
Não, mas eu acho que isto está a dar a volta. Não é com a pressa que nós queremos, mas eu acho que há mudanças. Eu penso que sim, que há mudanças. Lisboa já não é o que era, nem tem que ser. Há muita coisa a fazer. Eu penso que sim. E vai devagarinho, vai ao sítio. Eu acho que sim. Demora tempo, nunca é quando nós queremos e precisamos, mas vai lá chegar. Essas mudanças, penso que sim.
É bom ter essa esperança e esse otimismo.
Tem que ser. Aliás, o povo português tem muita paciência. Eu é que já não tenho paciência e esperança. Fala-se muito na esperança.
Muito palco, muita vida e histórias. O que te ainda surpreende nas pessoas?
A mim surpreende-me uma coisa que me incomoda muito: pensar que as pessoas são uma coisa, são outras. As pessoas são muito más. Isso magoa-me e surpreende-me. Eu fico surpreendido com a maldade das pessoas, especialmente quando acredito nelas e que de repente percebo que: "Espera, não é assim". Isso surpreende-me. A maldade, a inveja. Surpreende-me como é que há pessoas tão invejosas, tão maldosas. A troco de quê? Não faço ideia. Isso surpreende-me. Porque eu acredito nas pessoas, eu gosto das pessoas e depois fico desiludido, fico surpreendido com a maldade, com a inveja. Enfim.
É daquelas situações que consegues colocar de parte quando alguém, por exemplo, tem esse tipo de acto mais...
Não, finjo e parece que perdoo, mas deixo aí.
Fica sempre ali a mágoa.
Fica. É como se eu fosse um bocado de chapa e desse-me uma martelada, fica uma mossa.
O Carlos Areia viveu várias histórias de amor, sabemos disso. Tem filhos, netos e agora uma pessoa muito especial na sua vida, a Rosa Bela.
Ya.
Que fez questão de partilhar aqui algumas palavras que vou passar a ler, a citar, e já vamos falar sobre isso. "Há amores que impressionam pelo início, o nosso impressiona-me pela permanência, pelos anos que passaram sem que deixássemos de encontrar motivos para rir, conversar, sonhar e continuar a construir memórias lado a lado. A vida muda-nos, transforma-nos, desafia-nos a crescer e ainda assim há pessoas que continuam a sentir-se em casa. E tu és isso. A familiaridade que nunca se torna banal, a companhia que continua a surpreender, a história que continua a escrever novos capítulos. Gosto de pensar que o amor mais bonito não é o que vive de grandes promessas, mas o que se revela nos gestos simples, nos olhares cúmplices, nas rotinas partilhadas e na tranquilidade de saber que alguém caminha ao nosso lado. E depois de tudo o que já vivemos, continuo a achar extraordinário que a vida me tenha dado a oportunidade de a viver contigo, porque há pessoas que passam e há pessoas que ficam. E tu és sem dúvida uma das coisas mais bonitas que a vida deixou ficar. Aliás, decidiu deixar ficar."
Isso foi das coisas mais bonitas que alguém escreveu sobre mim. Foi a minha Rosa Bela que escreveu isso.
Foi, exatamente. É emocionante até ler e sentir o poder destas palavras.
É emocionante e dá-me alguma responsabilidade. Manter isso, manter essa chama viva, isso tudo que ela sente, eu tento manter, fazer por isso. Mas foi assim que nasceu essa relação. A nossa relação nasceu assim e manteve-se assim até hoje. E ela é uma mulher, não consigo encontrar adjetivos.
Ela fez questão de os gastar todos, se calhar, agora aqui nestas palavras.
É curioso que ela é uma mulher espantosa. Tem sido o meu andarilho, não é uma bengala, é um andarilho. Ela é que me tem amparado em tudo na vida. Tem sido espantosa. Olha, ainda agora estava a tentar: "Ó Rosa, resolve-me lá este problema", que ela é que me resolve tudo. E não é só o resolver, é o entender-me como pessoa.
Ser companhia também.
Enquanto homem, ela é mulher. Entender-me como homem, com a idade que tenho, as diferenças de idade, as diferenças de pensamento, opinião. Ela perceber isso. Às vezes custa. Custa-me a mim, custa a ela, mas ao longo destes anos, temos entendido um ao outro.
Como é que o vosso amor tem resistido? Porque fala-se muito dessa questão da idade. E eu queria perguntar a ti, Carlos Areia, se tu também já criaste uma armadura para tudo aquilo que se diz ou se fala quando se fala de vocês, porque a questão da idade vem sempre ao de cima.
Vem, vem sempre.
A diferença de idades.
Continuo com a minha postura de vida. Eu sempre brinquei com a vida e brinco com isso. Eu e ela brincamos com isso, não valorizamos nada disso. Nada. Achamos que as pessoas são tristes, são pobres de pensamento, não têm mais nada que dizer nem que fazer e gozamos um bocado da situação assim. Pronto, ok, já me chamaram avô, já me chamaram pai. Brincamos: "Anda cá ao avô, dá um beijinho ao avô". Brincamos com isso tudo, não desfaz moça nenhuma. Não.
E é bom também manter essa leveza na vossa relação.
Não carregar com isso, não senhora.
Tu sonhas muito e sei disso, acompanho, que pelo dia em que a Rosa Bela seja também muito reconhecida pelo seu trabalho. Ela é atriz.
Estava.
E quer muito trabalhar na sua área e ter essa oportunidade de trabalhar fortemente no sentido de ser contínuo.
Sim. Ela está numa área boa agora, está a fazer aquilo que gosta e posso adiantar que esse passo que ela quer dar já há uns... Nós vivemos há 17 anos, esse passo que ela anda a tentar dar há perto de 20 anos, já deu o primeiro passo. Vai arrancar agora o segundo passo. Para o mês que vem penso que ela já começa a caminhar. Mas não posso falar muito sobre isso. Não que ela me dissesse alguma coisa, mas tenho medo de comprometer o projeto, mas vai começar a andar.
Uhum.
Para ela, que é muito bom.
E é mais um motivo de orgulho pra ti, que torces muito por isso.
Muito. Que ela tenha essa oportunidade e depois que a agarre com os pés, com as mãos, que vá por aí acima e que não pare mais.
Exato. Carlos Areia, falamos desta relação de amor e destas palavras que agradeces também à Rosa Bela por ter partilhado pra ti, foi escrito pra ti.
Foi.
Quem és tu além da representação? O que tu gostas de fazer num dia em que não haja projetos, num dia em que estejas, por exemplo, com a Rosa Bela? O que tu gostas de fazer?
Olha, com a Rosa Bela eu gosto muito de estar com os meus, gosto muito de viajar. Gosto muito de pegar neste carro, neste caso, tenho um carro velho, mas que anda muito. Gosto de pegar no carro, ir nela e andar sem destino, como já fizemos mais do que uma vez. Andar mesmo sem destino. Se bem que as nossas saídas da cidade, geograficamente, ou vamos para o IP2 para sul, ou vamos para o IP1 para norte e depois encontramos caminho. Já uma vez fui dar uma volta pra ver uma barragem cá dentro, que era muito famosa, e fui parar a Santiago de Compostela. Pronto. E com a Rosa.
Não foi em vão essa viagem.
Não. Fazemos muito isso. Portanto, gosto muito de estar com os meus, neste caso, com a Rosa, com as minhas filhas, com as minhas irmãs, que são os meus anjos da guarda, e acima de tudo, ver aqueles que me rodeiam bem.
Tu és uma pessoa de pessoas.
Sou uma pessoa de pessoas, de contato e de gente, e gosto, adoro gente.
O que mais te fascina numa pessoa boa?
É a bondade. O dar sem receber, dar sem nada em troca. É a melhor coisa do mundo. E eu tenho tantos amigos tão bons. Nisso eu sou muito feliz. A minha fortuna são os amigos e a família. Gostava de ter, não vou dizer: "Não, eu não quero ser pobre". Gostava de ser rico, ter o mínimo, mas depois olho, faço o balanço e digo: "Mas eu sou rico, eu sou milionário, tenho os melhores amigos do mundo, tenho a melhor família". É o melhor que eu tenho.
Quem é a pessoa que mais admiras?
Gostava muito de admirar a minha mãe, que eu não conheci. E admiro-a muito e nunca a vi. Não sei por que não consigo, mas gostava muito de a ter conhecido e admiro, uma mulher daquela altura deve ter passado muito. E depois que me deu o melhor da vida, deu-me o mundo, ofereceu-me o mundo. E admiro muito.
Tu consegues formar algum tipo de imagem mental, imaginar como é que ela seria?
Imagino, perdão, porque eu vi algumas fotos dela. E vi muito mais que eu não quero contar aqui, que é realmente tétrico pra uma criança daquela idade. Vi muito mais. Posso dizer que eu conheci os ossos da minha mãe. Está tudo dito. Porque naquela altura o tratamento que era dado aos corpos era diferente do que acontece agora. E a minha querida avó, sem intenção nenhuma, fez-me passar por cenas macabras, que eu não me arrependo nada, penso já ter ultrapassado isso. E talvez por isso eu, e pelas histórias que eu ouvi, guardo essa memória e admiro muito a minha mãe, por tudo que me contaram. É verdade.
E fica sempre essa memória em ti.
Sempre. E vi uma ou duas fotografias dela, que era uma mulher bonita. E fica-me essa memória.
Há algumas memórias que tu na altura consideravas simples, mas que agora têm mais importância nesta tua vida?
Desculpe.
Alguma memória que só agora aprendeste a valorizar? Algo simples que antes parecia mais banal e que agora tem mais significado.
A vida no seu todo. Não foi muito agradável. Eu acho que tinha direito a uma vida que não me ofereciam. Não havia condições. Eu sabia que havia, como diz o outro, havia vida para além daquilo. E eu só descobri isso anos mais tarde. Portanto, descobri a vida muito tarde, porque até uma certa idade, aquela vida não desejo a ninguém.
Vamos terminar. O que te inquieta, Carlos Areia?
Inquieta-me o que se está a passar no mundo. Preocupa-me os meus netos, e inclui todos os netos dos outros e os filhos. O que é que o mundo lhes oferece? Da maneira que eu estou a ver, não sei. Tenho medo, tenho receio de que os nossos filhos e os nossos netos vão pagar uma fatura muito grande se ninguém põe mão nisto. Este mundo assusta-me. Mais para eles, pra mim já nada me assusta.
O mundo, falas dos conflitos, por exemplo, da questão da guerra?
Sim. Não passa despercebido a ninguém. E não sei o que o mundo vai oferecer a esta gente, a esta juventude. Isso assusta-me, preocupa-me Isso.
Vamos terminar com um convite. Nós estamos a gravar esta entrevista dia 9 de junho. As pessoas já não vão a tempo de te ver na Figueira da Foz, porque este programa passa ao domingo, mas no Porto, a partir de 18 de junho.
Eu podia aproveitar agora para dizer mal da cultura, está muita gente a dizer, e com razão, mas não vou falar disso. Mas que a cultura anda mal, anda. Mas depois falaremos noutra entrevista.
Até porque agora vamos falar também de cultura, do espetáculo que tu estás, o "Quinteto de Morte", como eu estava a dizer, já não vai a tempo da Figueira da Foz, mas no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, a partir de 18 de junho.
A 12 de julho.
Exatamente. Quase um mês para ver esta peça incrível, que junta muitos atores, como já falou aqui o Carlos Areia.
Um elenco espetacular. Devia ter trazido, se calhar.
São muitos.
Desde a nossa Pantufinha, o Zé Raposo e a Florbela.
A Florbela Ancários.
E depois os filhos do Raposo, Miguel e Ricardo. No Porto vai estrear o Óscar Branco. Vai fazer uma substituição. Um abraço para o Óscar. É uma peça, uma história engraçadíssima.
É rir do início ao fim.
Ou do fim para o princípio.
Pronto, é igual.
Depende do ponto de vista. Sim, é uma história muito engraçada.
Fica aqui o convite para quem quiser.
Vão ao Sá da Bandeira.
Carlos Areia, muito obrigado por teres vindo aqui ao Observador e nesta entrevista no "Em 40 Minutos". Um abraço e muito sucesso.
Obrigado.
observador



